Situação Internacional agudiza

a capitulação do Partido Comunista do Brasil

O mesmo período de meados da década de 1950 é marcado por contradições e retrocessos. Em 1956, todos os comunistas e progressistas do mundo que viam a URSS como farol emancipatório, esperavam ver as diretrizes a serem tomadas no primeiro Congresso do PCUS após a morte de Stalin. Stalin, revolucionário bolchevique desde sua juventude, que após a morte de Lenin se mostrou como o principal continuador da causa do comunismo, esteve à frente da construção socialista da União Soviética durante mais de duas décadas. Sob sua liderança, a URSS foi capaz de realizar sua industrialização socialista e garantir uma vida digna para todos os povos do país em plena crise mundial do imperialismo. Combateu as tendências oportunistas de direita e de esquerda (bukharinismo e trotskismo) que surgiram no Partido e dirigiu o processo de coletivização da agricultura. Em 1936 a União Soviética aprova uma nova constituição, que consagra diversos direitos fundamentais históricos, o que colocava a pátria do proletariado mundial na vanguarda do processo civilizatório. Em uma época onde o povo negro era perseguido e linchado nas ruas dos Estados Unidos, a URSS estabeleceu a primeira constituição que criminalizava o racismo. Ainda sob a direção leninista de Stalin, a URSS foi a grande responsável pela libertação da humanidade do nazi-fascismo e pela derrota do eixo Alemanha-Itália-Japão. Stalin também teve o mérito de combater os oportunismos, de direita e de esquerda, para minar a contrarrevolução, e mesmo após a derrota do fascismo e contando com mais de 70 anos de idade, rechaçou o dogmatismo e o sectarismo dentro do PCUS, contribuindo grandemente para o desenvolvimento da teoria revolucionária marxista-leninista. Combateu energicamente todas as manifestações do revisionismo no seio do Partido e no Movimento Comunista Internacional, vide sua luta contra o revisionismo de Josep Broz Tito. Tais feitos renderam a Stalin um enorme prestígio entre o proletariado internacional e os povos oprimidos do mundo, que se referiam ao líder dos povos da URSS e do Partido Comunista como “Libertador da Humanidade” e “Genial Guia dos Povos”. Conta-se que cerca de quatro milhões de pessoas participaram do seu velório em Moscou[3], dando amostras claras de que Stalin realmente defendeu a classe operária e seu poder político.

No entanto, alguns equívocos da antiga direção revolucionária de Stalin, na condução da luta de classes sob o socialismo, criaram as condições para a subida da ala direitista do Partido, representada por Khrushchev a partir do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética[4], realizado em 1956, que representou o início do divórcio da URSS com a construção de uma nova sociedade. No tão famoso XX Congresso do PCUS, o revisionista Nikita Khrushchev, que na época se encontrava à frente do partido, deu grande ênfase em atacar a direção revolucionária de Stalin, sob o pretexto de se “retornar ao leninismo” que, nas palavras de Khrushchev, havia sido deturpado por Stalin, e de “combate ao culto à personalidade”. Contudo, não se retornou ao leninismo – o mesmo leninismo que era agora posto por terra – e não se combateu o “culto à personalidade” (“culto” este substituído então pela ausência de uma direção revolucionária).

As duas principais teses do XX Congresso foram a de que a força do bloco socialista poderia apaziguar conflitos internacionais, fazendo com que agora as guerras não mais seriam inevitáveis, e a tese segundo a qual nos países onde o Partido Comunista ainda não havia tomado o poder, a passagem do capitalismo para o socialismo poderia se dar pacificamente. Posteriormente, no XXI Congresso ocorrido em 1959, superestimaram dogmaticamente sua própria realidade e defenderam que as bases para o comunismo já estavam consolidadas, com a URSS alcançando a sociedade sem classes por volta de 1980(?), ignorando as diversas contradições ainda existentes na sociedade socialista que devem ser superadas para se abrir caminho ao comunismo (contradição entre cidade e campo, trabalho manual e intelectual, luta de classes no seio do partido, etc.), não levando a cabo a transformação revolucionária das relações de produção para efetuar uma passagem gradual às relações de produção comunistas, bem como das relações ideológicas, daí afirmando lamentavelmente que a etapa da ditadura do proletariado havia sido superada na URSS, e que agora então o Estado Soviético seria um “Estado de todo o Povo” e o partido dirigente, o PCUS, também não seria mais o destacamento avançado da classe operária, e se convertera em um “Partido de todo o Povo”. Ao rejeitarem que ainda haveria luta de classes no socialismo por um logo período de tempo, abriram caminho para os diversos tipos de oportunistas e burgueses ganharem força e se infiltrarem cada vez mais no Estado e no Partido, sabotando o próprio socialismo, promovendo crescente a desideologização não só do Partido, mas também do Exército e da sociedade soviética como um todo. Como não enxergavam os problemas que apareciam como produto das classes que desejavam criar obstáculos na construção do socialismo, e que a partir delas se avançariam os ventos da contrarrevolução, usaram de métodos capitalistas para “resolver” tais problemas, como a adoção do lucro como principal critério de produção das empresas, afrouxamento da planificação econômica, se estabelecendo cada vez maior separação entre as empresas socialistas e o Estado, e entre os produtores diretos e os meios de produção, e criando uma camada privilegiada afastada das massas, cujo interesse era obstaculizar a construção do socialismo, sendo uma nova ala burguesa no seio da sociedade e do Partido. 

Dito isto, fica nítido que os interesses de Khrushchev e da nova direção soviética em liquidar Stalin não eram “combater o culto à personalidade” nem “retornar ao leninismo”, mas sim atacar Stalin a fim de fazer prevalecer suas teses direitistas, abandonando os princípios do marxismo-leninismo, fazendo subir a ala burguesa do Partido na orientação do PCUS, o transformando em um partido revisionista. A partir de 1956, o PCUS regrediu para posições cada vez mais contrarrevolucionárias. No campo internacional, impôs que os Partidos Comunistas do mundo abandonassem a luta armada contra a burguesia e o imperialismo e adotassem o parlamento como meio principal de luta. Segundo tal teoria, que ficou mundialmente conhecida como “transição pacífica ao socialismo”, o proletariado evitaria choques frontais contra as velhas forças reacionárias em prol de uma suposta coexistência pacífica da URSS com os países do Ocidente. Além disso, defendia a postura conciliadora de que o desenvolvimento do socialismo na URSS e nas democracias populares do Leste Europeu, por si só, daria conta de abrir caminho para o socialismo em países outrora capitalistas.

 

[3] Ver livro "Stalin, um Novo Olhar", de Ludo Martens.

[4] Ver artigo "Os 60 anos do XX Congresso do Partido Comunista da URSS", publicado na Revista Nova Cultura #7.