Sobre a luta no Donbass e a guerra na Ucrânia



Nas duas últimas semanas assistimos as ações militares protagonizadas por Rússia e Ucrânia, como a culminação de um processo que se estende há quase uma década, mas que a aparência determinada pelo grande aparato da mídia burguesa internacional tenta vender como fruto de mera vontade de um dirigente.


A “invasão da Ucrânia” ou a “agressão de Putin” não podem ser compreendidas a partir de si, mas devemos dar a devida atenção ao papel da OTAN e do imperialismo estadunidense em todo esse processo. Longe de tratar-se de somente mais uns dos personagens, a ação dos Estados Unidos e sua já contraditória aliança com os países centrais da Europa é o que determinou o avanço da situação para uma guerra.


E, evidentemente, ao contrário do que os “pacifistas” que sempre surgem nessas horas para afirmar as obviedades de que a guerra é ruim ou prejudica os trabalhadores, devemos compreender a guerra, como sempre, sendo a continuação da política por outros meios, e a saída natural do capitalismo em crise como se dá no cenário no qual vivemos.


Portanto, as análises não podem se iniciar como se o conflito tivesse se iniciado agora, espontaneamente, por caprichos mais ou menos arbitrários de indivíduos no poder político desses países. O elemento essencial desse conflito é o processo de independência das repúblicas de Lugansk e Donetsk, ou seja, no direito da autodeterminação do povo etnicamente russo que habita a região do Donbass.


A partir do golpe sofrido pelo presidente Yanukovitch, impulsionado pelo chamado Euromaidan e as forças reacionárias que emergiram desse processo, a população ucraniana de etnia russa passou a ser abertamente perseguida e violentada por grupos e milícias fascistas como o Batalhão Azov e o Pravy Sector, que resgatando a imagem do colaborador nazista Stephan Bandera da Segunda Guerra Mundial e sua reacionária ideologia “nacionalista” ucraniana”, passaram a se organizar para oprimir a minoria de origem russa no país.


E é justamente nesse cenário que eclodiu a luta do povo da região de Donbass, unindo nacionalistas russos, socialistas, trabalhadores e pessoas comuns da região, diante do inimigo fascista que se apoderou-se do Estado ucraniano desde Kiev, com a anuência e mesmo apoio dos políticos que o Ocidente vende como democráticos, tal qual o atual presidente.


Desde então, ou seja, há pelo menos 8 anos, a região de Donbass é vítima de crimes de guerra, sendo constantemente bombardeada pelo exército ucraniano. Os dados mais recentes, de 2019, apontam um saldo de mortos desses crimes de aproximadamente 13 mil, sendo 3,3 mil civis, segundos dados da ONU. Crimes bárbaros foram cometidos pelas forças fascistas de Kiev, como o assassinato com tiros e fogo de 39 pessoas na Casa dos Sindicatos, em Odessa.


Mesmo com o acordo de Minsk celebrado em Minsk, em Belarus, em 2014, entre os representantes dessas repúblicas de Lugansk e Donetsk e os governos de Rússia e Ucrânia, a opressão fascista de Kiev não cessou, chegando ao ponto de proibir o idioma russo no país.


Assim, com a escalada da pressão do governo de Joe Biden contra a Rússia e a favor da entrada da Ucrânia na OTAN para completar o cerco da aliança imperialista nas fronteiras do país, a Rússia finalmente reconheceu a independência das repúblicas de Donetsk e Lugansk e realizou os ataques contra a Ucrânia, abrindo mais um capítulo de sua disputa geopolítica, como ocorrera há alguns anos na sua participação nos conflitos na Síria.


Obviamente, não se trata de alimentar ilusões sobre considerar a ação militar russa como um ato puramente progressista. A região é alvo de interesses concretos tanto do capitalismo russo, como europeu e estadunidense, e o processo de independência do Donbass também lida com tais interesses. Além disso, a própria figura do dirigente russo Vladimir Putin busca ganhar politicamente com a guerra, para consolidar-se ainda mais no poder do país. Mas devemos, como dizemos anteriormente, entender não só o que está em jogo nessa guerra atual entre Rússia e Ucrânia, mas o caminho posto no horizonte, no qual os conflitos cada vez mais amplos no cenário mundial se coloca como necessidade para o imperialismo estadunidense em decadência e seu gigantesco complexo militar tentar escapar da crise geral do sistema capitalista.


Justamente por isso é preciso saber não cair nas narrativas simples, monopolizadas pelos aparatos ideológicos do imperialismo que avança na busca de demonizar um dos lados e santificar o outro lado fascista, a qual sempre deu apoio e financiou seus crimes. Tampouco deve-se alimentar o já descontrolado chauvinismo antirrusso atual, que para justificar uma condenação à guerra, fomenta os piores sentimentos xenófobos contra todo um povo, aproveitando o passado para reciclar um novo macartismo.


Não é a primeira vez que um conflito de libertação nacional avança e outras forças o transformam, assim como não é a primeira vez que o imperialismo ianque e a OTAN alimentam e financiam conflitos étnicos e nacionais para criar guerras e se vender como representante da luta pela democracia no mundo.


Como comunistas, nós da URC não podemos nos permitir ser ingênuos e jogar água no moinho de interesses contrários ao da classe operária e dos povos coloniais e semicoloniais do mundo. É preciso uma correta compreensão das contradições em jogo no atual cenário mundial e como nos ensinou Mao Tsé-tung, é necessário abandonar as ilusões e nos preparamos para as guerras que se avizinham, na qual os trabalhadores serão as principais vítimas, se não tiveram ao seu lado a força de sua organização.


Todo poder às Repúblicas Populares de Lugansk e Donetsk!

Pela autodeterminação dos povos do mundo!

Pela derrota do Imperialismo!

Pelo fim da OTAN!