As ilusões eleitorais e o futuro do povo brasileiro



1. As eleições neste ano de 2022 se converteram em mais uma repetição do rebaixamento político característico desde a retomada consentida da chamada “democracia” após o final do regime militar nos anos 80. Diante da tragédia do governo de Jair Bolsonaro, medíocre figura fascista que emergiu pelo contexto político propício e sustentado pelos militares, a figura de Luis Inácio Lula da Silva, reabilitado pelo Estado burguês e sua justiça, que o havia tirado da disputa há 4 anos atrás.


2. A crise brasileira se aprofunda a cada dia que passa – econômica, política e socialmente –, como resultado dos processos que se arrastam desde a última década, iniciado no governo Dilma Rousseff, derrubada por não cumprir com agilidade a agenda de reformas da burguesia para recuperar da queda das taxas de lucros, passando pelo golpista Michel Temer que avançou na destruição dos direitos com o Teto de gastos e a destruição da legislação trabalhista, que abriu as portas para a tutela dos militares no Estado brasileiro, que terminaram por eleger a Jair Bolsonaro, que surfou na demagogia anticorrupção apelando para os sentimentos mais atrasados das massas brasileiras. Contudo, nenhuma das figuras foi capaz de resolver a crise brasileira, ainda que a burguesia tenha conseguido minimizar seu prejuízo com a destruição da maior parte dos direitos do nosso povo.


3. Diante desse cenário catastrófico para as massas brasileiras, os partidos políticos da ordem, como o fazem a cada 2 anos, se apressaram para mais uma disputa eleitoral, para repetir a mesma ladainha de sempre e fazer as velhas promessas de mudança que não mexerão em nada fundamental das questões estruturais do nosso país semicolonial. Mesmo diante da descarada demonstração do caráter da “democracia” burguesa brasileira e suas instituições nos últimos anos, do Golpe de Estado, a prisão de candidatos, o financiamento de todos os políticos pelos grandes interesses financeiros e a repetição do modelo econômico imposto pelos imperialistas, a chamada esquerda brasileira segue apontando que o (único) caminho é a disputa institucional e parlamentar, sabotando todas as oportunidades de amplificar as lutas de massas do nosso povo. Assim, todos contribuem para legitimar e validar a farsa eleitoral brasileira.


4. Diante disto, os brasileiros e brasileiras em uma sociedade que limita a participação política às urnas, só podem expressar sua insatisfação e descrédito por meio disto. E a cada pleito que passa, a não participação nas eleições. Na última eleição presidencial, foram mais de 10 milhões de votos nulos e brancos, enquanto quase 30 milhões de eleitores não compareceram às urnas, um nível de 20,3%, ficando atrás somente do registrado em 1998. Independente da motivação individual de cada abstenção, seja mais ou menos avançada, os números demonstram a rejeição dos brasileiros a este modelo político-eleitoral, que não apresenta resultados concretos para a vida das pessoas.


5. Essa sacralização da luta eleitoral como única via possível se apresenta conveniente para o oportunismo dos chamados partidos de “esquerda”, que a cada dois anos jogam todas suas forças para ganhar uma cadeira no parlamento ou um lugar na estrutura do Estado burguês-latifundiário brasileiro. E foi o que vimos nestes quase 4 anos do governo Bolsonaro, que mesmo diante do entreguismo das nossas riquezas e estatais estratégicas, da destruição da natureza e dos ataques aberto aos camponeses, indígenas e quilombolas, do aumento da carestia e da fome, da morte de centenas de milhares de pessoas pela condução criminosa na pandemia, da retirada de direitos, enfim, mesmo diante do crescente descontentamento das massas, não mobilizaram as lutas necessárias para enfrentar os constantes ataques a altura exigida, quando não ajudaram a desmobilizar as lutas espontâneas que surgiram no período. Basta ver o triste ocaso dos protestos “Fora Bolsonaro”. Em nome do eleitoralismo, da promessa da vitória de um candidato, não contribuíram para aumentar o nível de consciência das massas tampouco potencializar as lutas iniciadas.


6. Desta forma, há muito trocaram a luta de resistência aos ataques do governo Bolsonaro e seu Congresso Nacional corrupto para alimentar uma espécie de sebastianismo do retorno do ex-presidente reabilitado, prometendo a volta de uma realidade que nunca foi exatamente como pintam. Assim, que ousa questionar minimamente o esboço de programa apresentado, quem não repete o mero sentimentalismo político contra o mal maior, necessita ser neutralizado.


7. Assim reduzem as questões fundamentais do debate político, vendendo para as massas, justamente insatisfeitas e preocupadas com o futuro, em promessas que não poderão ser cumpridas por mera repetição das políticas aplicadas em outro momento. A “esquerda” se apresenta como aqueles que vão resgatar o Estado “democrático”, devolvendo alguns direitos (não todos, como já foi anunciado) para voltar a um Brasil idealizado. Até fala-se de tudo o que foi destruído e dos ataques aos trabalhadores, mas não a quem interessa e serve o processo destrutivo, mesmo que para isso tenham que se aliar aos mesmos que contribuíram para esse cenário atual. Tudo passa a ser fruto e obra da mera vontade e boa intenção, assim basta trocar um pelo outro e tudo estará resolvido. Desindustrialização, dívida pública, imperialismo, agronegócio passam a ser meros detalhes a ser tratados em outra hora.


8. Mesmo a demagogia antissistema de Bolsonaro parece soar melhor em parte dos brasileiros como algo mais coerente do que a ode do oportunismo ao Estado burguês, nessa tentativa desesperada de salvar a democracia burguesa de sua inevitável putrefação. Mesmo os que se dizem marxistas, apesar de hora ou outra denúncia o mau cheiro, não se esforçam para condenar o que já está podre e, portanto, já não pode ser servido ao nosso povo.


9. Por isso, independente do resultado das eleições em outubro, seja a luz alcançada no primeiro turno, ou a ameaça da escuridão no segundo turno, como a esquerda parece querer crer, os problemas fundamentais do nosso país, dominado pelo imperialismo e diante de uma crise capitalista mundial, seguirão graves e sem solução pela via do Estado burguês brasileiro, independente da boa vontade dos eleitos. É necessário denunciarmos o caráter das eleições burguesas nesse atual momento histórico em nosso país, destruirmos as ilusões que voltaram a ser alimentadas em toda o nosso continente com uma saída institucional e lutar ombro a ombro em todas as lutas do nosso povo, para poder contribuir com o avanço da consciência das massas brasileiras para criar as condições subjetivas para a construção da Revolução Brasileira.


UNIÃO RECONSTRUÇÃO COMUNISTA